A legitimidade da minha alegria

Escritos, Sociedade

[…] pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Dilma Rousseff, primeira presidenta do Brasil, discurso da vitória, 31 de outubro de 2010. Para ler na íntegra, aqui.

*

Nas eleições de 1989, eu era uma criança. Por incrível que possa parecer, aos 10 anos eu acompanhei da maneira que podia e lembro de alguns flashs do fatídico debate editado. Também lembro da minha desolação com a vitória do Collor e o anúncio do confisco da poupança.

Nas eleições seguintes, em 1994, eu queria muito votar. Mais uma vez, eu não podia. Desolação dupla. Quatro anos depois, lá fui eu feliz da vida. Desolação novamente. Comecei a achar que o Lula não ganharia jamais.

Por isso, em 2002, eu chorei de alegria com a sua vitória. No dia da posse, fiquei colada no sofá, assistindo pela televisão.

Política para mim sempre foi algo absolutamente sério. Como deu para perceber, desde criança. Antes eu era idealista, hoje eu sou prática. Números e mudanças concretas me tocam muito mais do que um discurso bem construído. Falei outro dia (aqui) sobre democracia. É exatamente nisso que eu acredito. Igualdade para todas as pessoas. Eu disse todas.

Os meus votos em Lula e Dilma foram absolutamente conscientes. Sei o que estava fazendo. Nem por isso aqueles que votaram nos outros candidatos (FHC, Alckmin e Serra) não sabiam. Porque se eu tenho o direito de escolher quem eu quiser, cada cidadão também tem.

Dessa forma, também é direito meu me encher de alegria e chorar no discurso da vitória da Dilma. Porque além de acreditar nela, na continuidade do Lula, ela é uma mulher. Eu sou feminista desde que me entendo como mulher. Sempre acreditei na igualdade de direitos (não de gêneros, mas isso é assunto para outro dia). E vê-la começar seu discurso falando justamente que uma mulher pode foi o suficiente para me emocionar demais. Uma emoção legítima que ninguém tirará de mim, seja quem for.

As boas-vindas eu darei a ela apenas no dia primeiro de janeiro de 2011. Mas até lá, aproveitarei essa brisa de satisfação que invadiu o meu domingo. Parece que ainda sou aquela menina de 10 anos, que desejou imensamente ver um dia isso acontecer. E aconteceu.

Cássia Pires, em A legitimidade da minha alegria.

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