A ervilha no meio das cerejas

Sociedade

Quando eu li o texto Eu não gosto do verão, da Maria Ribeiro, eu me identifiquei. Também não gosto do verão, tampouco de praia.

Acho graça quando escuto a frase “O grande problema de São Paulo é que não tem praia!”. Pelo contrário. É uma das maiores virtudes desta cidade. Infelizmente, o verão dá as caras por aqui, mas não o suficiente para acabar com o meu humor.

Marca de biquíni? Passo. “Mas os homens adoram!” Se eu fizesse em mim todas as mudanças necessárias para agradar a maioria dos homens, seria um Frankenstein. Areia grudando no corpo? Passo. Parece que fico uma semana com aquilo no cabelo, na boca, no corpo. Vestido levinho e chinelo nos pés? Passo. Para mim, isso é roupa de ficar em casa. Não uso havaianas nem para ir ao supermercado ao lado da minha casa. Cabelos ao vento? Passo. Gosto dos meus cachos no lugar. Corpo mole por conta do calor? Passo. Minha pressão cai, não consigo fazer nada e parece que o mundo caminha mais devagar. Banho de mar? Passo trinta vezes. Sinto até agonia.

Há um porém: os meus pais gostam de praia. Não só, eles têm um apartamento a uma quadra do mar. Eu não me importo em ir para lá no Ano-Novo, mas há três anos o meu biquíni não sai para passear.

E por que contei tudo isso? Apenas para falar que, quando estou lá, não olho os passantes como seres desocupados que não têm o que fazer. Não faço ar superior de que “não perco o meu tempo torrando na areia”. Pessoas besuntadas de óleo não me incomodam. Há quem espere meses para estar lá. Tampouco fico alardeando para o pessoal do prédio “Eu não gosto de praia, viu?!” enquanto famílias inteiras passam por mim com sua esteira debaixo do braço.

E por que não faço isso? Porque eu tenho educação.

Sendo assim, eu não entendo quem ama dizer que odeia Natal. Há pessoas empolgadas e felizes com a data. E não é da conta de ninguém se é por causa dos presentes, da comida, do encontro familiar ou pela religiosidade. Mas não, as pessoas têm de gritar para o mundo que o-d-e-i-a-m. É como se eu chegasse no meio da praia lotada e gritasse a mesma coisa. Eu estou deslocada, não os outros.

Todo mundo tem de amar esta época? Claro que não. E não me venham com a balela de “a sociedade impõe uma alegria coletiva” porque isso me dá preguiça. Só temos de fazer quatro coisas nesta vida: comer, dormir, tomar água e respeitar os outros. Mas há quem esqueça o último item.

Eu adoro Natal. Já passei momentos muito tristes nesta época, mas há um encantamento em mim que não desaparece. Quando eu for mãe, sei que isso será triplicado.

Não peço nada ao Papai Noel, mas acho que este ano eu pedirei que as pessoas cuidem mais da própria vida. E respeitem o que é sagrado para os outros. Sei que é duro, mas aceite: o que você gosta ou não, é problema somente seu.

Cássia Pires, em A ervilha no meio das cerejas.

Anúncios

6 comentários sobre “A ervilha no meio das cerejas

  1. Engraçado, que embora ainda não tivesse lido isto, mas acho que já sabia que você não gostava de verão: é só ler o blog, sentir o clima aqui, e logo vemos que aqui não tem cara de verão, engraçado isso, não é mesmo? Mas gosto muito daqui, você sabe, admiro a beleza das quatro estações. Também acho que as pessoas não devem gritar que odeiam algo, sem dizer os seus motivos. Até porque tem muita coisa que a gente gosta por ingenuidade mesmo, e quando escutam que o outro não odeia, ah, claro que isso não basta.

    Beijos e pétalas.

  2. Eu amei isso!!
    Como é difícil para as pessoas o conceito de respeito!
    Não se consegue ter um ponto de vista discordante porque as pessoas não conseguem respeitar o diferente.
    Isso me lembra o episódio da menina que foi com vestido curto na universidade e foi chamada de prostituta pelos colegas e,sim essa história degringolou para algo muito além do bizarro, mas mesmo que ela fosse prostituta teria o direito de ser respeitada.
    bj

  3. Fiquei com vontade de imprimir esse texto e colar em todos os postes de São Paulo…
    Espetacular, Cas… adoro quando vc coloca em palavras as coisas que muitos pensam mas não conseguem ou têm medo de expressar.
    Bjos

  4. Pétala, não tinha pensado nisso, é mesmo nítido que eu não sou “a cara do verão”, hehehe.

    *

    Jac, é aquela história, quando é da gente, queremos respeito, quando é do outro, não estamos nem aí. E essa história da Geyse é mesmo bizarro! O que veio depois também não é da nossa conta, mas aquela humilhação pela qual ela passou não tem nome.

    *

    Rener, brigadaaaaa!

    *

    Cátia, nada de ops! 😉

    *

    Lu, obrigada. Fico feliz quando você comenta e gosta dos textos. Às vezes, a Chumbinho que mora em mim se manifesta, mas hoje em dia de uma maneira mais tranquila, hehehe.

    Beijos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s