O MEC e sua cartilha

Sociedade

[…] passo ao aspecto da língua como algo mais que mero meio de comunicação imediata e banal. Ela não é só isso. Língua é muito mais. Língua é repositório cultural. Língua é arte na literatura. Língua é o meio de que nos servimos também para expressar ideias abstratas e complexas, e tanto mais abstratas e complexas quanto mais avançam nossas sociedades, nossos estudos, nossos afazeres. Dizer a um aluno que ele deve usar a norma culta para não ser vítima de preconceito (e só isso!) é omitir que ele está lá para aprender a usar um instrumento que lhe possibilitará no futuro — quando ele for engenheiro, médico, cientista, astronauta, pedreiro ou mecânico — a melhor expressão de suas ideias, a comunicação mais rigorosa de seus pensamentos, de seus dados, de suas descobertas. Em vez de passar a mão na cabeça do “coitadinho”, não seria mais positivo ensinar a ele que o aprendizado aprofundado da língua faz parte do seu aperfeiçoamento global como indivíduo? Não seria mais interessante descortinar o futuro que o aguarda como sujeito de sua história, como pessoa capaz de dominar e expressar bem todos os seus saberes? Como cidadão pleno de um país que se quer adiantado? Não está na hora de abandonar o paternalismo? O cordialismo à brasileira?

Tão estreito quanto ditar regras gramaticais como se elas tivessem baixado com o Decálogo no Sinai é promover verdadeiras cruzadas contra quem defende o respeito às convenções da língua culta. Porque essa convenção, como todas as outras, foi criada para uniformizar usos e (extremo paradoxo!) facilitar a comunicação. Língua é mutável? Sem dúvida. Mas não tão mutável quanto parecem crer alguns. Porque, como tudo o que está inscrito na tradição de uma sociedade, ela é fruto da luta entre um impulso de mudança e um impulso de permanência. A cada momento, cada forma linguística é a manifestação da resultante dessas duas forças, de tal forma que cultuar a mudança é tão estúpido quanto cultuar a permanência.

[…] E as pessoas sempre se agarram a um só lado das coisas, porque contemplar os dois lhes dá vertigem.

Ivone C. Benedetti, trechos de O MEC e sua cartilha.
O excelente texto pode ser lido completo aqui.

Fonte: Facebook, Raquel.

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