Que língua a escola deve ensinar?

Sociedade

O que a escola faz, e tem a obrigação de fazer — porque só ela pode fazê-lo de maneira progressiva e sistemática — é ensinar o futuro cidadão a se utilizar dessa forma  tão especial de língua que é a língua escrita culta, cujas potencialidades espantosas aparecem na obra de nossos grandes autores. [..] Todas as demais variedades são respeitáveis como fenômeno cultural e antropológico, mas não é nelas que a escola deve concentrar seus esforços.

Nosso aluno espera que ensinemos a ele a usar essa língua que constitui a modalidade do Português que todas as pessoas articuladas aceitam como a mais efetiva para expressar seu pensamento. Dizendo de um jeito mais rude: se houvesse forma melhor, ela estaria sendo usada. […] Quem não lembra a triste moda dos anos pós-Woodstock, em que defendíamos com entusiasmo a valorização da linguagem do vileiro como algo digno de ser preservado? Hoje sabemos que nada mais era do que uma alegre fantasia da classe média acadêmica, que terminava cristalizando uma categoria de excluídos, contra a vontade de seus pobres falantes. “Não é para isso que a gente estuda”, dizem eles — e chamá-los de conservadores é o mesmo que dizer, com arrogância, que nós é que sabemos o que é bom para a sua vida. Já vimos isso na política, em que alguns têm a petulância de dizer que o povo não soube escolher…

[…] Muitos alegam que essas regras são mantidas apenas porque é assim se afirma o poder da elite, dividindo a população entre os que conseguem e os que não conseguem entendê-las. Em parte, é verdade: quem as domina consegue expressar-se melhor e argumentar melhor, o que resulta inevitavelmente em maior poder sobre os outros. Mas não são regras estabelecidas por capricho ou por acaso; nasceram da experiência acumulada em milhares de tentativas de expressar-se articuladamente no Português, ao longo dos últimos oito ou nove séculos, num esforço gigantesco que produziu esse magnífico instrumento de expressão e de argumentação. Se essa língua é usada para dominar e submeter, pode, com muito mais razão, ser usada para libertar. Em nome da igualdade social, essa é a missão da escola; agora, como fazer isso, em escala universal e democrática, é uma questão que deve ser resolvida estrutural e politicamente pelos governos e pela sociedade, não pelos professores de Português.

Cláudio Moreno, trechos de Que língua a escola deve ensinar?
Para ler o texto completo, aqui.

*

Esse texto e este outro desenvolvem muito bem aquilo que acredito. E eu posso falar sobre o assunto não porque sou revisora e preparadora de textos e minha especialidade são os livros técnicos e didáticos, não porque sou formada em comunicação social e tive quatro anos de língua portuguesa no currículo, não porque eu fui professora de língua portuguesa para alunos de cursinho pré-concurso, eu posso falar porque sou brasileira e o idioma oficial do meu país é o português. Esse assunto me pertence, a despeito de qualquer argumentação contrária a isso. Sendo assim, qualquer pessoa pode, e deve, argumentar da maneira que lhe apraz, estando correta ou não. Porque isso diz respeito a todos nós.

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6 comentários sobre “Que língua a escola deve ensinar?

  1. Você está coberta de razão: todo mundo tem direito de opinar sobre a própria língua e sobre o que quer que seja, desde que não ofenda, agrida e/ou ultrapasse o limite do outro. Isso é, inclusive, questão legal.

    *
    *
    Respondendo ao título do post: a escola deve ensinar a ler e a escrever, obviamente em norma culta; mas deve, acima de tudo, respeitar todas as variantes da língua, independentemente de quem as use.

    😉

  2. Carol, opinar é uma coisa, agredir é outra. Análises e argumentações, desde que embasadas, sempre serão bem-vindas. Sobre a escola, ela não deve apenas respeitar todas as variantes da língua, ela deve respeitar o aluno em todos os seus aspectos, mas o seu papel é ensinar. Aí deve residir o seu foco e a sua dedicação.

    Beijos.

  3. Oi Cássia,

    Muito interessante seu post, li os dois textos sugeridos, gostei muito de algumas colocações com em relação a norma culta, ao fato de que escrever seguindo uma série de convenções disciplina nosso pensamento, e nos tornamos individuos mais articulados, enfim… somente não concordo com o fato de que estão levando as sugestões do MEC pra um ringue sem a menor necessidade.
    Pra mim, a mídia está tendo uma má fé terrivel neste caso, como também teve no caso do Monteiro Lobato. A coisa se trata de “dominar a norma culta para utilizá-la quando for necessário, mas não ser estigmatizado por não utilizá-la em outros espaços”. Reconhecer e respeitar todas as formas de de comunicação, mas sem jamais considerar que falar de qualquer jeito é a mesma coisa. Como se o MEC entendesse que estudar gramática fosse apenas para não ser vítima de preconceito social.
    Como já disse, para mim, isso se trata de mais um caso de má fé. Gostaria de sugerir um texto de um amigo, pois compartilho totalmente de seu ponto de vista:

    http://171nalata.wordpress.com/2011/05/20/os-especialistas-em-educacao/

    Parabéns pelo blog, lo tengo marcado en mis preferidos!
    Besitos desde Chile.

  4. Sabrina, mas as minhas questões nada tem a ver com o posicionamento da mídia. Aliás, li pouquíssimas coisas a respeito e os textos aqui colocados são de dois especialistas em língua portuguesa, ambos professores. A minha grande questão é justamente sobre o ensino da língua portuguesa nas escolas. Ponto. Variações linguísticas existem e seria chamar todos nós de ignorantes por pensar que não entendemos isso. E, sinceramente, tenho uma preguiça gigantesca do termo “preconceito linguístico” ou “social” ou sei lá o quê. O preconceito simplesmente existe. Quando eu tinha 10 anos, eu falava “corretamente” e um colega de classe gritou na minha orelha: “Fala que nem gente!”. Qual o nome disso? Ah, preconceito! 😉 Somos preconceituosos e pronto. E seremos vítimas disso em algum momento, seja no que for. Essa é uma questão que está muito, mas muito além de um “nós vai”.

    Beijos.

  5. Sim, entendo. Mencionei a mídia e expressei minha opinião porque um dos textos levantou esse debate. Todos sabemos que preconceito existe, e muitas vezes somos vítimas e outras vezes carrascos. Uma coisa é saber que existe, outra coisa é o posicionamento como educador frente ao fato. Justamente por ser uma questão que está muito além de um “nós vai” é que o papel do professor é tão questionado por diversos opinólogos, sendo ou não especialistas em educação.
    O papel da escola é ensinar sem dúvida, e todos concordamos com isso.
    Bom, esqueci de mencionar, também sou professora, e meu amigo do texto sugerido é doutor e professor universitário.

    Abraços 😉

  6. Sabrina, por isso mesmo a minha questão versa sobre o papel da escola e do professor. Além disso, o professor não é o “salvador da pátria”, a sua atuação vai até um limite. O preconceito começa em casa, não na escola. Sobre os “opinólogos”, não vejo mal algum todos opinarem sobre o fato, como eu disse no fim do post. Isso é um assunto que atinge todos nós, não apenas alunos e professores. E enquanto as pessoas opinam, elas estão questionando a respeito e só por isso toda essa discussão já tem valido a pena.

    Um grande abraço.

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