Para além de tudo

Escritos

“Sem um empurrão, você não vai.” Ouviu atentamente o diretor de teatro e não ousou rebatê-lo. Ela não ia. Tentava, e não conseguia. O medo era mais forte que a sua vontade.

A peça demandava alguns feitos difíceis de serem realizados. Em um armazém, ela passaria por um túnel feito de lençol, subiria uma escada construída por três atrizes agachadas, seria erguida por uma outra. Fácil. Não era fácil: durante toda essa cena, ela estaria de olhos vendados.

Uma das atrizes a conduzia pela mão, mas como confiar? Ela não confiava. Roubou no jogo: conseguia enxergar o chão por uma fresta da venda de tecido. Fez todas as sessões dessa maneira e ninguém nunca desconfiou.

Na vida, a venda cobre nossos olhos e não há uma única fresta para espiar o chão. O medo não é negociável. Não é possível roubar no jogo. Onde está a atriz que a guiou pela mão? Isso ela também não poderá ter.

Quando a covardia vem visitá-la, as palavras do diretor vêm à sua mente. “Sem um empurrão, você não vai.” Um não, vários. Ela precisa de um empurrão atrás do outro até dar-se conta: não há para onde fugir. É seguir ou seguir.

Seguir sozinha de olhos vendados. Seguir na vida é caminhar na penumbra.

A cena terminava em um canto do armazém com as outras atrizes de costas para ela e para a plateia. Todas balançavam de um lado para o outro como se fossem ondas. Depois das agruras do caminho, a personagem contemplava o mar.

Será assim na vida? Para além do medo em percorrer o próprio caminho, a imensidão do mundo está à nossa espera.

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