Sotaques

Internet, Literatura

A Porto Editora produziu o belíssimo “Sotaques”: falantes de língua portuguesa de diversos países lendo um texto de Valter Hugo Mãe, “O Paraíso são os outros”. O vídeo será cedido gratuitamente ao Museu da Língua Portuguesa, que atualmente está em processo de reconstrução.

Quem ama a literatura, a palavra, a língua portuguesa e os sotaques se desmanchará de amor. Confesso, eu chorei.

“Sotaques”, Miguel Gonçalves Mendes e Porto Editora.

10 coisas que aprendi sobre perdoar

Literatura
  1. Perdoe cada pedaço de si mesma. Cada pedaço. Mesmo as partes de você que foram abandonadas por garotos insaciáveis.

2. Quando você não consegue dormir e seu corpo está implorando para que você se acalme, lembre de como sua mãe lutou por você. Lembre de suas lágrimas, lembre do seu peito rígido e de cada golpe que ela levou da língua ferina do seu pai.

3. Beije suas próprias mãos. Não fique zangada consigo mesma por causa de homens que nunca poderiam ser gentis com seus próprios dedos.

4. Quando alguém disser que você é emotiva, agradeça. Agradeça por reconhecerem a parte de você que reconhece Deus.

5. Beba água, seu corpo sempre vai aceitar esse pedido de desculpas.

6. Você nunca vai (totalmente) esquecer.

7. A cura é divina. Aceite isso graciosamente.

8. Perdoe-se por ser fraca por baixo do peso dele, ele é um homem que carrega uma bagagem de 4 gerações.

9. A manhã traz um novo dia, novas oportunidades para serem perdoadas.

10. Cultivar amargura dentro de você só fará com que você se transforme em um campo de tristeza.

Key Ballah, “10 coisas que aprendi sobre perdoar”.
Tradução de Taís Bravo

Outros poemas, aqui.

Todo leitor gosta de apanhar (mas os neuróticos reagem)

Literatura

“Ler por prazer é um ato quase religioso. Um dogma. Aceita-se sem contestar. Não vá querer discutir com um leitor, desprezar seu hábito, pôr sua sanidade em dúvida. Você só ganharia um inimigo – e um inimigo com argumentos, porque é amigo das palavras.”

Nicole Ayres, trecho de “Todo leitor gosta de apanhar (mas os neuróticos reagem)”.
Para ler o texto completo, aqui.

Uma palavra sobre estatísticas

Literatura

Em cada cem pessoas
Aquelas que sempre sabem mais:
cinquenta e duas.

Inseguras de cada passo:
quase todo o resto.

Prontas a ajudar,
desde que não demore muito:
quarenta e nove.

Sempre boas,
porque não podem ser de outra maneira:
quatro – bem, talvez cinco.

Capazes de admirar sem invejar:
dezoito.

Levadas ao erro
pela juventude (que passa):
sessenta, mais ou menos.

Aqueles com quem é bom não se meter:
quarenta e quatro.

Vivem com medo constante
de alguma coisa ou de alguém:
setenta e sete.

Capazes de felicidade:
vinte e alguns, no máximo.

Inofensivos sozinhos,
selvagens em multidões:
mais da metade, por certo.

Cruéis,
quando forçados pelas circunstâncias:
é melhor não saber
nem aproximadamente.

Peritos em prever:
não muitos mais
que os peritos em adivinhar.

Tiram da vida nada além de coisas:
trinta
(mas eu gostaria de estar errada).

Dobrados de dor,
sem uma lanterna na escuridão:
oitenta e três,
mais cedo ou mais tarde.

Aqueles que são justos:
uns trinta e cinco.

Mas se for difícil de entender:
três.

Dignos de simpatia:
noventa e nove.

Mortais:
cem em cem –
um número que não tem variado.

Wislawa Szymborska, em “Uma palavra sobre estatísticas”.

Fonte: daqui.

A trapezista do circo

Literatura

“Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora, eu queria ser trapezista. Minha paixão era o trapézio, me atirar lá do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase, cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo, do que não ficava para sempre. Era outra vez, outro circo, ciganos e patinadores. O circo chegou a cidade era uma tarde de sonhos e eu corri até lá. Os artistas, eles se preparavam nos bastidores para começar o espetáculo, e eu entrei no meio deles e falei que eu queria ser trapezista. Veio falar comigo uma moça do circo que era a domadora, era uma moça bonita, forte, era uma moçona mesmo. Ela me olhou, riu um pouco, disse que era muito difícil, mas que nada era impossível. Depois veio o palhaço Poli, veio o Topz, veio o Diverlangue que parecia um príncipe, o dono do circo, as crianças, o público. De repente apareceu uma luz lá no alto e todo mundo ficou olhando. A lona do circo tinha sumido e o que eu via era a estrela Dalva no céu aberto. Quando eu cansei de ficar olhando para o alto e fui olhar para as pessoas, só aí, eu vi que eu estava sozinha.”

Antônio Bivar, em “A trapezista do circo”.