O dever de ouvir

Escritos

Há muitos anos, li em um fanzine a seguinte frase: “A minha boca muda grita na sua orelha surda”. Nunca mais a esqueci. Tanto tempo depois, a frase continua latente. A necessidade de questionar – ou seria desqualificar? – as vivências das outras pessoas parece se impor ao dever de ouvir. Sim, ouvir é um dever. Mas, não, é preciso soltar ao mundo a própria opinião sobre as histórias alheias, como se isso fosse mais importante do que qualquer opressão e violência sofrida pelos outros. Machismo, racismo, homofobia, preconceito de classe, nada disso existe para muitas pessoas. Opressão? Não, chorume de vítima. Porque a porrada que dói nos outros continua sangrando longe dessa gente.

Se não quer ouvir por empatia, ouça por egoísmo. Porque um dia pode ser você quem vai sangrar, e ninguém vai te ouvir. Daí então, quem estenderá a mão para você se levantar?

O meu novo livro: “Virgínia”

Escritos, Literatura

“Eu morava em uma casa que chorava.”

Quatro mulheres de uma mesma família viveram juntas por muitos anos até o momento em que a mais nova, Virgínia, se viu sozinha na vida. O que teria acontecido? Por que todas seguiram o seu caminho e ela ficou? O livro “Virgínia” conta a história de uma mulher cujo destino é um encontro entre a tristeza e a beleza.

* * *

Essa é a sinopse do meu novo livro, o primeiro escrito “do zero”. Espero sinceramente que vocês gostem.

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Quem estiver em outros países ou tem cadastro em outras Amazon, não tem problema, ele está sendo vendido em todas elas.

Não tem um Kindle? Tudo bem, basta baixar o aplicativo no seu computador, tablet ou celular e comprar o livro.

Vamos conhecer a Virgínia?

Vir a ser

Escritos

Ela sempre fez planos. Ela sempre estipulou uma data para seus planos se concretizarem. Os problemas? Eles também tinham data para terminar. Dentro dela existia um calendário que contava os dias para o tempo-limite.

Mas o tempo corre sem contabilidade. Não há horas, dias, meses, anos. A vida acontece à revelia. Deus decide em outro compasso. Assim, veio a frustração. Não houve nada em sua vida que tenha correspondido aos seus planos. Nada.

No começo, ela acreditou ser uma mera adequação de datas. Aumentar um pouco o prazo, por que não? De nada adiantou. As coisas não aconteciam. As coisas aconteciam de um outro jeito. Ela esquecera das novas estradas, das paralelas, das bifurcações. Quem comanda o jogo não é você, minha querida.

Ela aceitou o fato. Trocou os planos pelos sonhos. Rasgou o calendário. Aprendeu a abrir a porta para os acontecimentos quando eles resolverem chegar. Não briga mais com a vida. Resolveu dar-lhe a mão para caminharem juntas rumo ao desconhecido.

Salvação

Escritos

A garoa era um reflexo do seu estado: ela estava nublada por dentro. Não chorava, mas se arrastava lentamente pela vida.

Fora obrigada a sair de casa naquele dia. Renovar o documento de identidade para quê? Ela não fez as regras, mas tem de cumpri-las. Entrou no ônibus e recebeu um bom dia do motorista. Respondeu sem vontade. Ao longo do caminho, notou que a gentileza não havia sido exclusividade: ele cumprimentava todos os passageiros e acenava para os conhecidos que passavam pela calçada.

Chegou à estação de metrô. Ao descer as escadas, ouviu o som do violino. A música aumentava conforme ela caminhava e logo reconheceu a melodia, era “Jesus alegria dos homens”. O violinista tocava lindamente, sequer desafinava. Ela sentiu vontade de chorar.

No guichê para pegar a senha, foi atendida por uma senhora usando óculos de lentes grossas. Gentil até a alma, fez todas as perguntas necessárias e concluiu os procedimentos com toda a calma.

Esperou pouco e foi atendida por uma moça, a simpatia em pessoa. Elas conversaram sobre banalidades entre as informações exigidas para a renovação do documento. No fim, ao entregar o protocolo, não deixou que ela segurasse o papel. “Pode deixar!” e o colocou gentilmente em sua pasta com os outros documentos exigidos.

No caminho para casa, ela chorou dentro do ônibus. O mundo não é tão cruel quanto ela imagina. Naquele dia, a delicadeza e a gentileza a salvaram da solidão.