De uma branca para outra

Sociedade

“Como para mim é mais difícil vestir a pele de uma mulher negra, porque por ser branca eu tenho menos elementos que me permitem alcançá-la, eu preciso fazer mais esforço. Não porque sou bacana, mas por imperativo ético. E a melhor forma que conheço para alcançar um outro, especialmente quando por qualquer circunstância este outro é diferente de mim, é escutando-o. Assim, quando ouvi que não deveria usar turbante, entre outros símbolos culturais das mulheres negras, fui escutá-las. Acho que isso é algo que precisamos resgatar com urgência. Não responder a uma interdição com uma exclamação: “Sim, eu posso!”. Mas com uma interrogação: “Por que eu não deveria?”. As respostas categóricas, assim como as certezas, nos mantêm no mesmo lugar. As perguntas nos levam mais longe porque nos levam ao outro.”

Eliane Brum, trecho de “De uma branca para outra”.
Para ler o texto completo, aqui.

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Missão Ebola: “Me reinventei a marretadas”

Sociedade

Para uma emergência de ebola, considerada a missão mais difícil de uma organização especializada em situações desesperadoras, só são chamados os mais experientes. De volta ao Brasil, Débora escreveria: “Voltei pra casa depois de 30 dias na epidemia de Ebola do Congo. E estou com aquele cansaço no corpo de quem passou a noite em claro num velório de 30 noites. Foi uma das missões mais difíceis que fiz. Triste. Muitas mortes. A vida se esvaindo sem dignidade. As febres hemorrágicas jogam na nossa cara a mesma matéria que nos faz viver. Era tanta vida saindo de cena e partindo, que, enquanto eu acordava, às cinco horas da manhã, segui escrevendo na minha agenda de atividades diárias a palavra funeral. E eu, um ser humano destes qualquer, uma mundele, uma mzumgu (branco estrangeiro), que nunca havia dividido os planos de vida com aquelas pessoas, agora era responsável por dividir com os parentes os planos para o último ato. O rito de passagem, funeral, velório, enterro era compartilhado sempre por mim. Queria que nós, humanos, virássemos fumaça, vento, ar. Indigno. Entrar no último ato dentro de um saco plástico lacrado, sem direito a ter sua face exposta. Sem direito ao último toque, à última fala, à última escuta dos votos de cuidado. Como assim? Sentimento de dor, sentimento de querer cuidar do outro. Como cuidar do outro sem tocar? Como abraçar alguém sem usar os braços? Como você acaricia a cabeça de uma menina de dois anos sem usar as mãos? Como dizer pra alguém que você está do lado dele quando precisa se afastar dois metros? Iniciar uma longa viagem sem companhia. Estar só. Logo ali, no último ato”.

Eliane Brum, trecho de Missão Ebola: “Me reinventei a marretadas”, entrevista com a psicóloga Débora Noal, do Médicos Sem Fronteiras.
Para ler a entrevista completa, aqui.

Fonte: @____MariaClara e @Imelidiane

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Post sobre a entrevista anterior que Eliane Brum realizou com Débora Noal, aqui.

“O que não é possível carregar comigo é porque não é meu.”

Sociedade

Eliane Brum entrevistou Debora Noal, psicóloga que trabalha em regiões de conflito pela organização Médicos Sem Fronteiras.

Eliane – É fácil para você partir desses lugares?
Debora – É como eu te disse. Eu não costumo focar muito no que fica, mas no que eu estou indo buscar. Como no sofrimento: você tem sempre uma alternativa. Não é o evento, em si, que te causa a dor. É o significado que você dá a ele. Às vezes me incomoda partir sem ver algumas respostas. Mas sei que o mundo não para quando eu vou embora. O mundo continua. E aquilo que você faz quando você está lá tem reverberações dentro das pessoas e dentro dos espaços. Então, é uma dor do tipo: estou indo embora, não vi o resultado disso, mas alguém vai ver. E tomara que aconteça. […]

A frase do título é de Debora Noal. A entrevista é extensa, profunda, difícil. E, por isso mesmo, incrível. Vale cada linha, cada história, cada pensamento. Leiam, releiam e compartilhem.

O link, aqui.