Vir a ser

Escritos

Ela sempre fez planos. Ela sempre estipulou uma data para seus planos se concretizarem. Os problemas? Eles também tinham data para terminar. Dentro dela existia um calendário que contava os dias para o tempo-limite.

Mas o tempo corre sem contabilidade. Não há horas, dias, meses, anos. A vida acontece à revelia. Deus decide em outro compasso. Assim, veio a frustração. Não houve nada em sua vida que tenha correspondido aos seus planos. Nada.

No começo, ela acreditou ser uma mera adequação de datas. Aumentar um pouco o prazo, por que não? De nada adiantou. As coisas não aconteciam. As coisas aconteciam de um outro jeito. Ela esquecera das novas estradas, das paralelas, das bifurcações. Quem comanda o jogo não é você, minha querida.

Ela aceitou o fato. Trocou os planos pelos sonhos. Rasgou o calendário. Aprendeu a abrir a porta para os acontecimentos quando eles resolverem chegar. Não briga mais com a vida. Resolveu dar-lhe a mão para caminharem juntas rumo ao desconhecido.

Sonhos de Einstein

Literatura

A tragédia deste mundo é que ninguém é feliz, não importa se preso a uma época de sofrimento ou de felicidade. A tragédia deste mundo é que todos estão sozinhos. Pois uma vida no passado não pode ser partilhada com o presente. Cada pessoa que fica presa no tempo, fica presa sozinha.

* * *

Alguns dizem que não se deve chegar perto do centro do tempo. A vida é um barco de tristeza, mas é nobre viver a vida, e sem tempo não há vida. Outros discordam. Prefeririam viver uma eternidade de felicidade, mesmo que essa eternidade fosse fixa e petrificada, como uma borboleta instalada em uma redoma.

Trechos de Sonhos de Einstein, de Alan Lightman.

num mundo particular*

Internet

“Há dias em que o teu corpo te obriga a parar. Ouve o que ele te diz. Precisas de ti, inteira. Precisas mais de ti, do que dos outros.

Cuida de ti. Cuida mais e melhor de ti. Fica atenta aos sinais que a tua pele te dá.

E nestes dias, em que precisas mais de ti, abraça-te. Não te preocupes com o resto do mundo. Porque o mundo vai continuar a ser o mesmo no teu regresso. E quem (e o que) tiver de esperar, se for importante, espera.

Repara em ti e celebra o que de melhor tens na (tua) vida: a tua saúde, o teu tempo, a tua liberdade, o teu amor, o teu pequeno mundo dos afectos.

E sabe, acredita com todas as forças, que algumas paragens que a vida te obriga a fazer, quando feitas no momento certo, ensinam-te a esperar pelo comboio que te leva ao destino. O teu.

Sim, pára e cuida de ti. O mundo pode esperar.”

Do belo “às nove no meu blogue”.

Salvação

Escritos

A garoa era um reflexo do seu estado: ela estava nublada por dentro. Não chorava, mas se arrastava lentamente pela vida.

Fora obrigada a sair de casa naquele dia. Renovar o documento de identidade para quê? Ela não fez as regras, mas tem de cumpri-las. Entrou no ônibus e recebeu um bom dia do motorista. Respondeu sem vontade. Ao longo do caminho, notou que a gentileza não havia sido exclusividade: ele cumprimentava todos os passageiros e acenava para os conhecidos que passavam pela calçada.

Chegou à estação de metrô. Ao descer as escadas, ouviu o som do violino. A música aumentava conforme ela caminhava e logo reconheceu a melodia, era “Jesus alegria dos homens”. O violinista tocava lindamente, sequer desafinava. Ela sentiu vontade de chorar.

No guichê para pegar a senha, foi atendida por uma senhora usando óculos de lentes grossas. Gentil até a alma, fez todas as perguntas necessárias e concluiu os procedimentos com toda a calma.

Esperou pouco e foi atendida por uma moça, a simpatia em pessoa. Elas conversaram sobre banalidades entre as informações exigidas para a renovação do documento. No fim, ao entregar o protocolo, não deixou que ela segurasse o papel. “Pode deixar!” e o colocou gentilmente em sua pasta com os outros documentos exigidos.

No caminho para casa, ela chorou dentro do ônibus. O mundo não é tão cruel quanto ela imagina. Naquele dia, a delicadeza e a gentileza a salvaram da solidão.