De uma branca para outra

Sociedade

“Como para mim é mais difícil vestir a pele de uma mulher negra, porque por ser branca eu tenho menos elementos que me permitem alcançá-la, eu preciso fazer mais esforço. Não porque sou bacana, mas por imperativo ético. E a melhor forma que conheço para alcançar um outro, especialmente quando por qualquer circunstância este outro é diferente de mim, é escutando-o. Assim, quando ouvi que não deveria usar turbante, entre outros símbolos culturais das mulheres negras, fui escutá-las. Acho que isso é algo que precisamos resgatar com urgência. Não responder a uma interdição com uma exclamação: “Sim, eu posso!”. Mas com uma interrogação: “Por que eu não deveria?”. As respostas categóricas, assim como as certezas, nos mantêm no mesmo lugar. As perguntas nos levam mais longe porque nos levam ao outro.”

Eliane Brum, trecho de “De uma branca para outra”.
Para ler o texto completo, aqui.

Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo

Sociedade

Selecionei apenas um trecho, mas é um texto para ser lido atentamente do começo ao fim.

“Vocês, mulheres brancas legais que querem se abrigar em nossos turbantes, vão estar conosco enquanto choramos as mortes dos nossos meninos negros e clamamos por justiça, certo? Vão usar turbante quando nossas mães e pais de santo são expulsos de comunidades ou entregues aos formigueiros, certo? Quando reclamamos da dor ao recebermos menos anestesia do que mulheres brancas durante os partos, certo? Quando denunciamos que sofremos mais violência, mais abuso e mais assédio do que vocês, certo? Quando reivindicamos equiparação salarial com vocês, certo? Vão reverberar nossas vozes quando reclamamos que somos preteridas pelos homens (brancos ou negros), certo? Vão entender e ter uma palavra de consolo quando sentimos culpa por deixarmos os próprios filhos em casa para cuidarmos dos seus, certo? Vão nos ouvir e nos defender quando tiver mais alguém querendo invadir nossos turbantes a força, na marra, no grito, certo? Porque aí, o turbante também já será de vocês. Vão ouvir, entender e falar junto quando tentamos explicar que nossas reivindicações, distorcidas, não têm nada a ver com pizza, calça jeans e feng shui, certo?”

Ana Maria Gonçalves, trecho do texto “Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo”.
Para ler o texto completo, aqui.

Uma palavra sobre estatísticas

Literatura

Em cada cem pessoas
Aquelas que sempre sabem mais:
cinquenta e duas.

Inseguras de cada passo:
quase todo o resto.

Prontas a ajudar,
desde que não demore muito:
quarenta e nove.

Sempre boas,
porque não podem ser de outra maneira:
quatro – bem, talvez cinco.

Capazes de admirar sem invejar:
dezoito.

Levadas ao erro
pela juventude (que passa):
sessenta, mais ou menos.

Aqueles com quem é bom não se meter:
quarenta e quatro.

Vivem com medo constante
de alguma coisa ou de alguém:
setenta e sete.

Capazes de felicidade:
vinte e alguns, no máximo.

Inofensivos sozinhos,
selvagens em multidões:
mais da metade, por certo.

Cruéis,
quando forçados pelas circunstâncias:
é melhor não saber
nem aproximadamente.

Peritos em prever:
não muitos mais
que os peritos em adivinhar.

Tiram da vida nada além de coisas:
trinta
(mas eu gostaria de estar errada).

Dobrados de dor,
sem uma lanterna na escuridão:
oitenta e três,
mais cedo ou mais tarde.

Aqueles que são justos:
uns trinta e cinco.

Mas se for difícil de entender:
três.

Dignos de simpatia:
noventa e nove.

Mortais:
cem em cem –
um número que não tem variado.

Wislawa Szymborska, em “Uma palavra sobre estatísticas”.

Fonte: daqui.

O que alimenta o mal?

Sociedade, Uncategorized

“As pessoas mais violentas, e aquelas mais terroristas, elas têm uma preocupação muito grande com você. Elas não têm uma preocupação com eles mesmos, mas querem mudar o mundo, querem fazer o bem ao mundo. Querem mudar a maneira que você pensa, o que você come, a maneira que você faz suas escolhas, querem mudar o partido político que você está interessado e, pelo seu bem, eles podem até matar você. Porque se você não concordar com o seu ponto de vista, porque se você não concordar com a sua filosofia de vida, com os seus padrões e as suas escolhas, você precisa ser destruído porque o resto da humanidade pode ser pervertido pelo seu pensamento. Percebe como o mal aqui se disfarça de bem?”

Trecho do vídeo “O que alimenta o mal?”, Monja Coen.

O lugar de fala

Sociedade

“Manter-me em silêncio é também compactuar com as formas hegemônicas de opressão. O silêncio ele pode, por um lado, ser entendido como uma forma de respeito à experiência que só a outra pode ter, mas ela é também uma forma de compactuar com a hegemonia da desigualdade.”

Debora Diniz, antropóloga e professora, trecho do vídeo “O lugar de fala”.