Todo leitor gosta de apanhar (mas os neuróticos reagem)

Literatura

“Ler por prazer é um ato quase religioso. Um dogma. Aceita-se sem contestar. Não vá querer discutir com um leitor, desprezar seu hábito, pôr sua sanidade em dúvida. Você só ganharia um inimigo – e um inimigo com argumentos, porque é amigo das palavras.”

Nicole Ayres, trecho de “Todo leitor gosta de apanhar (mas os neuróticos reagem)”.
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O fascista mora ao lado

Sociedade

Eu selecionei apenas um trecho, mas quem quiser perder o sono, leia o texto completo.

“Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos.

“Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo. Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a formas de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas.”

Vladimir Safatle, trecho de “O fascista mora ao lado”.

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De uma branca para outra

Sociedade

“Como para mim é mais difícil vestir a pele de uma mulher negra, porque por ser branca eu tenho menos elementos que me permitem alcançá-la, eu preciso fazer mais esforço. Não porque sou bacana, mas por imperativo ético. E a melhor forma que conheço para alcançar um outro, especialmente quando por qualquer circunstância este outro é diferente de mim, é escutando-o. Assim, quando ouvi que não deveria usar turbante, entre outros símbolos culturais das mulheres negras, fui escutá-las. Acho que isso é algo que precisamos resgatar com urgência. Não responder a uma interdição com uma exclamação: “Sim, eu posso!”. Mas com uma interrogação: “Por que eu não deveria?”. As respostas categóricas, assim como as certezas, nos mantêm no mesmo lugar. As perguntas nos levam mais longe porque nos levam ao outro.”

Eliane Brum, trecho de “De uma branca para outra”.
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Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo

Sociedade

Selecionei apenas um trecho, mas é um texto para ser lido atentamente do começo ao fim.

“Vocês, mulheres brancas legais que querem se abrigar em nossos turbantes, vão estar conosco enquanto choramos as mortes dos nossos meninos negros e clamamos por justiça, certo? Vão usar turbante quando nossas mães e pais de santo são expulsos de comunidades ou entregues aos formigueiros, certo? Quando reclamamos da dor ao recebermos menos anestesia do que mulheres brancas durante os partos, certo? Quando denunciamos que sofremos mais violência, mais abuso e mais assédio do que vocês, certo? Quando reivindicamos equiparação salarial com vocês, certo? Vão reverberar nossas vozes quando reclamamos que somos preteridas pelos homens (brancos ou negros), certo? Vão entender e ter uma palavra de consolo quando sentimos culpa por deixarmos os próprios filhos em casa para cuidarmos dos seus, certo? Vão nos ouvir e nos defender quando tiver mais alguém querendo invadir nossos turbantes a força, na marra, no grito, certo? Porque aí, o turbante também já será de vocês. Vão ouvir, entender e falar junto quando tentamos explicar que nossas reivindicações, distorcidas, não têm nada a ver com pizza, calça jeans e feng shui, certo?”

Ana Maria Gonçalves, trecho do texto “Na polêmica sobre turbantes, é a branquitude que não quer assumir seu racismo”.
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