num mundo particular*

Internet

“Há dias em que o teu corpo te obriga a parar. Ouve o que ele te diz. Precisas de ti, inteira. Precisas mais de ti, do que dos outros.

Cuida de ti. Cuida mais e melhor de ti. Fica atenta aos sinais que a tua pele te dá.

E nestes dias, em que precisas mais de ti, abraça-te. Não te preocupes com o resto do mundo. Porque o mundo vai continuar a ser o mesmo no teu regresso. E quem (e o que) tiver de esperar, se for importante, espera.

Repara em ti e celebra o que de melhor tens na (tua) vida: a tua saúde, o teu tempo, a tua liberdade, o teu amor, o teu pequeno mundo dos afectos.

E sabe, acredita com todas as forças, que algumas paragens que a vida te obriga a fazer, quando feitas no momento certo, ensinam-te a esperar pelo comboio que te leva ao destino. O teu.

Sim, pára e cuida de ti. O mundo pode esperar.”

Do belo “às nove no meu blogue”.

Salvação

Escritos

A garoa era um reflexo do seu estado: ela estava nublada por dentro. Não chorava, mas se arrastava lentamente pela vida.

Fora obrigada a sair de casa naquele dia. Renovar o documento de identidade para quê? Ela não fez as regras, mas tem de cumpri-las. Entrou no ônibus e recebeu um bom dia do motorista. Respondeu sem vontade. Ao longo do caminho, notou que a gentileza não havia sido exclusividade: ele cumprimentava todos os passageiros e acenava para os conhecidos que passavam pela calçada.

Chegou à estação de metrô. Ao descer as escadas, ouviu o som do violino. A música aumentava conforme ela caminhava e logo reconheceu a melodia, era “Jesus alegria dos homens”. O violinista tocava lindamente, sequer desafinava. Ela sentiu vontade de chorar.

No guichê para pegar a senha, foi atendida por uma senhora usando óculos de lentes grossas. Gentil até a alma, fez todas as perguntas necessárias e concluiu os procedimentos com toda a calma.

Esperou pouco e foi atendida por uma moça, a simpatia em pessoa. Elas conversaram sobre banalidades entre as informações exigidas para a renovação do documento. No fim, ao entregar o protocolo, não deixou que ela segurasse o papel. “Pode deixar!” e o colocou gentilmente em sua pasta com os outros documentos exigidos.

No caminho para casa, ela chorou dentro do ônibus. O mundo não é tão cruel quanto ela imagina. Naquele dia, a delicadeza e a gentileza a salvaram da solidão.

Logo agora, Maestro Galeano?

Internet, Literatura

“É uma lembrança muito vaga. Na verdade, nem sei se lembrança mesmo ou construção de memória pelo relato dos outros, que é na verdade como são nossas recordações mais primárias. Nessa zona cinza entre o que é de fato o que vivi e o que me contam que vivi, a primeira lembrança de Eduardo Galeano é lá pelos meus 3,4 anos. Uma resenha boemia como eram as resenhas na casa dos meus pais. E eu maravilhado sempre com aquele povo. Naquele dia mais ainda porque alguns ali falavam algo parecido com o que eu entendia mas não era exatamente o que eu falava. Eduardo Galeano e meu pai eram bons amigos e o uruguaio, apaixonado pelo Rio, em uma de suas centenas de vindas, levou até nossa casa seu amigo, jornalista e escritor dos grandes, Luis Martirena. Eram anos duros, as paredes tinham ouvido e um coronel no terceiro andar tinha sido incumbido de ver quem entrava e saia lá de casa. A inocência de criança me fazia passar e provocar quando ele se achava escondido olhando pela fresta da janela. Pra desespero dos meus pais, eu mandava tchau e ria! Gente sumia, morria, mas a boa resenha entrou noite adentro, com boa música, boas risadas, as discussões quentes e aquela velha vontade de salvar o mundo, além do papo de futebol e obviamente de política. Tudo isso fazia lembrar que a vida valia a pena, apesar de tudo.”

Para continuar a leitura desse belíssimo texto, aqui.

Lúcio de Castro, “Logo agora, Maestro Galeano?”.

Por que eu? Por que não eu?

Escritos

O teto se abre, a água jorra, a casa alaga.
A fatalidade acontece, a morte chega, o vazio se instala.
O sol nasce, a doença surge, o tempo para.

Por que eu?
Não fiz mal a ninguém.
Há tantas pessoas ruins no mundo.
Não deveria ter acontecido comigo.
Não mereço.

Não é uma questão de merecimento.
Todos temos um poço aberto no meio da sala.

Por que não eu?
A dor não é privilégio de ninguém.

Me & You

Internet

Me & You é um curta-metragem que mostra um relacionamento do começo ao fim. Gostei especialmente da visão que temos dos acontecimentos, e gostei mais ainda quando tudo está bem entre eles. Dá um afago no peito.

Para assistir diretamente no Vimeo, aqui.

Me & You, escrito e dirigido por Jack Tew.

Fonte: Sara, Facebook .