A trapezista do circo

Literatura

“Era uma vez, mas eu me lembro como se fosse agora, eu queria ser trapezista. Minha paixão era o trapézio, me atirar lá do alto na certeza de que alguém segurava minhas mãos, não me deixando cair. Era lindo mas eu morria de medo. Tinha medo de tudo quase, cinema, parque de diversão, de circo, ciganos, aquela gente encantada que chegava e seguia. Era disso que eu tinha medo, do que não ficava para sempre. Era outra vez, outro circo, ciganos e patinadores. O circo chegou a cidade era uma tarde de sonhos e eu corri até lá. Os artistas, eles se preparavam nos bastidores para começar o espetáculo, e eu entrei no meio deles e falei que eu queria ser trapezista. Veio falar comigo uma moça do circo que era a domadora, era uma moça bonita, forte, era uma moçona mesmo. Ela me olhou, riu um pouco, disse que era muito difícil, mas que nada era impossível. Depois veio o palhaço Poli, veio o Topz, veio o Diverlangue que parecia um príncipe, o dono do circo, as crianças, o público. De repente apareceu uma luz lá no alto e todo mundo ficou olhando. A lona do circo tinha sumido e o que eu via era a estrela Dalva no céu aberto. Quando eu cansei de ficar olhando para o alto e fui olhar para as pessoas, só aí, eu vi que eu estava sozinha.”

Antônio Bivar, em “A trapezista do circo”.

Pelos corredores escuros e encanamentos sujos da mente

Internet

A saudade de ser amada me assola hoje. Não de ser querida: de ser amada. E a reboque vem a raiva do discurso de autossuficiência, “você precisa SE amar”. Olha, venho me esforçando. Venho tendo relativo sucesso. Mas quando não vejo saída nenhuma e vejo meus demônios virando a esquina e com o punho fechado pra bater na minha porta (imaginem o Sr. Vandemar e o Sr. Croup, de Lugar nenhum, do Neil Gaiman. Se não der pra imaginar tratem de ler, andem logo), minha saída de alguma forma é pensar que tudo seria muito diferente se eu sentisse que sou amada. Que alguém me ama. Olhos brilhantes, borboletas, “oi, liguei pra dizer que amo você”, essas besteiras. Não coloque suas expectativas em outra pessoa, você diz. Eu retruco que quero ler no outro “quero ser amado. Você pode me amar”.

Paliativos, placebos. Não estou me importando hoje.

D., trecho de “pelos corredores escuros e encanamentos sujos da mente”.

Fonte: Suzana, Facebook.

A esquerda que não teme dizer seu nome

Sociedade

Neste exato momento, não sabemos o que fazemos, mas sabemos que há um mundo que lentamente desaba. Muito desse desabamento é graças exatamente a essas ações que fazemos sem saber o que fazemos, pois o processo histórico que destrói os limites de uma época é sempre animado pelo que ainda não encontra forma para ser posto como representação da consciência ou da intenção.

Vladimir Safatle, trecho de “A esquerda que não teme dizer seu nome”.